segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Dia de chuva na floresta, um treino realista.

Para o feriado do dia do comércio, me programei para passar o dia na floresta praticando técnicas de Bushcraft, registrando o máximo possível em fotos.

Na tarde da véspera, o tempo que havia estado perfeito por muitos dias virou, caindo uma chuva que só viria a parar quase 30 horas mais tarde. Mas isto não me fez mudar de planos.

Achei que seria uma oportunidade de pôr à prova minhas habilidades em uma situação relativamente controlada, o que é muito importante. Muitas pessoas vão praticar apenas nos dias mais perfeitos de sol, se esquecendo de que a maior parte das emergências ocorre justamente quando o tempo muda repentinamente.

Mochila carregada, parti rumo à floresta. Como um dos objetivos era justamente testar a nova faquinha, a EDC, ela foi na minha cintura acompanhada da minha bowie.

A chuva caía levemente, o que tornava a caminhada agradável, mas conforme avançava na trilha os pingos iam engrossando e caindo mais frequentemente. Desde o incício fui recolhendo todo material seco que encontrava, conforme aconselhei no post sobre o fogo.

Quando cheguei na cachoeira que é um atrativo bastante conhecido do público carioca, achei que era um bom lugar para fotografar a faca. Feito isto usei o mini tripé e o automático da câmera para tirar um auto retrato.
Eu na cachoeira, prestes a cruzar o rio.
A faquinha em sua primeira saída de campo comigo.
É neste ponto que a maioria das pessoas fica, mas meu caminho continuava do outro lado do rio. Algum tempo depois a chuva começava a cair bem forte, e eu considerei as alternativas de abrigo. Poderia fazer apenas um telhado com minha cobertura da rede, ou fabricar um usando materiais nativos, conforme tutorial já esboçado. Antes que tivesse tomado uma decisão avistei um abrigo natural que poderia me servir perfeitamente. Após uma breve inspeção, resolvi ficar.

Inspeção do abrigo. Vazio e perfeitamente seco.
Mochila no chão, materiais secos protegidos pelo abrigo, comecei a procurar lenha nas redondezas. Foi difícil, pois absolutamente tudo esteve debaixo de chuva desde a véspera. Separei o material menor e fui atrás de galhos maiores. Achei uma árvore jovem caída, e tratei de picotá-la. Parti os pedaços ao meio para expor a madeira mais seca, ou melhor, menos molhada, e separei também. Ao redor do abrigo havia muita vegatação tombada, e marcas de deslizamentos das tempestades ocorridas no início do ano.

Esse foi todo o material seco que pude encontrar.
Materiais intermediários. Alguns bem secos, outros úmidos.
Galhos maiores partidos.
Como era cedo, resolvi esperar para acender o fogo mais perto da hora de comer, e enquanto isso sentei no abrigo e botei a EDC para trabalhar. Raspas de um pedaço de madeira roída por insetos formavam material bem pequeno para acender o fogo.


Sentado esperando o tempo passar.
Raspas de madeira seca, boa isca de fogo.
Mais cedo, enquanto partia os galhos, encontrei uma forquilha que pensei ser um perfeito estilingue após algum trabalho. De novo a EDC entrou em ação. Pena que não levei os elásticos prontos de casa.

Forquilha pronta, só faltavam os elásticos.
Lá fora o tempo continuava muito ruim, mas no abrigo tudo seco.

Chuva e vento me esperavam fora do abrigo.
A fome foi batendo, e era a hora de acender o fogo. Foi aí que eu tive que trabalhar realmente duro. Lembra o que disse sobre material úmido? Pois é, minutos de faíscas produzidas não foram capazes de acender mesmo o menor e aparentemente mais seco dos materiais. Confirmei a importância de carregar além do meu Ferro Rod, a barra de magnésio. Tive que raspar um bocado dela para ajudar o material a começar a queimar. A EDC foi usada sem pena nesta tarefa, e não decepcionou. Além de não ter seu fio seriamente danificado, sua empunhadura se mostrou extremamente confortável mesmo sendo usada mais à frente. Após acrescentar o pó de magnésio, bastou uma boa raspada no Ferro Rod para produzir a primeira chama. Daí para a frente fui acrescentando mais material até que o fogo estivesse consolidado. Devido à umidade, precisei oxigenar a fogueira constantemente, soprando pelas frestas. Entre uma soprada e outra, engoli um bom bocado da fumaça produzida pela madeira molhada. Nada agradável. :)
Fogo!
Enquanto o fogo se mantinha, a lenha maior ficava ao lado para secar mais. No momento oportuno, foi toda inserida no fogo, e novamente precisei soprar muito para que o fogo pegasse nelas, ao invés de diminuir. Mistura de madeira errada com umidade. Sim, a madeira, que não sei qual é, queimava com pouco calor, virando brasa antes de ter gerado chamas. Isso atrasou consideravelmente a fervura da água.
Macarrão instantâneo? Nem tanto...
Após comer e descansar aproveitando a vista da floresta, achei que era hora de começar a preparar a volta para casa, afinal, a tarde avançava. Para minha sorte a chuva havia acabado, embora qualquer vegetação estivesse encharcada.

Dando um toque exótico ao dia, quase ao final da trilha, um macaco prego mais curioso veio ver quem eu era.

Macaco curioso. Não parou um segundo para uma boa foto.
No fim das contas, apesar do enorme esforço, consegui fazer fogo mesmo com todas as condições desfavoráveis. Esta foi certamente a fogueira mais difícil da minha vida, mas consegui. Isto prova que o treino das técnicas certas é essencial para o sucesso.


Te vejo na trilha!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O fogo, um desconhecido do homem moderno.



 O fogo, este elemento de vital importância para a sobrevivência do homem na Terra, é na verdade um grande desconhecido da maioria das pessoas. Graças às facilidades da vida moderna, poucas pessoas ainda detém o conhecimento sobre o funcionamento básico do fogo, no mundo natural. Isto é facilmente comprovado pela dificuldade geral em acender uma lareira ou mesmo uma prosaica churrasqueira. Um número impressionante de pessoas falha miseravelmente na tentativa de acender o fogo ao iniciar um churrasco mesmo tendo à disposição álcool e fósforos! Daí então quando transportamos este mesmo homem para a selva, o desafio de acender uma fogueira com ainda menos recursos parece impossível. Mas, para seus antepassados era apenas mais uma tarefa de sua rotina diária.

A proposta de alguns aventureiros, e eu me incluo nesta categoria, é a de resgatar alguns conhecimentos e práticas antigas para estreitar os laços com a natureza, compreendendo melhor o funcionamento deste elemento. A sensação de fazer fogo sem precisar de um isqueiro é indescritível, e só quem já acendeu uma fogueira desta maneira, debaixo de chuva e vento, sabe o quanto é gratificante.

Se você acha que nunca vai desejar deixar seu zippo em casa, não se preocupe, este post ainda assim será útil para você. Porque ele trata basicamente do fogo, seja de que maneira comece. O texto aborda principalmente fogueiras, que usam materiais diversos encontrados na natureza. Uma churrasqueira usa carvão, que nada mais é que madeira pré queimada, ou seja, mesmos princípios com menos etapas. Dito isto:

Procure estudar o mecanismo do fogo. Entenda como ele se alimenta e de que maneira podemos estimulá-lo ou arruiná-lo.

O básico: Fogo precisa de calor, combustível e oxigênio para existir. Montar uma pilha compacta de lenha(ou carvão) só abafa o fogo, enquanto uma estrutura organizada que permita a circulação do ar leva a uma chama constante e forte. Por outro lado, se a região tiver ventos demasiadamente fortes, acender a fogueira em uma canaleta ou buraco pode ser uma boa alternativa. Chão molhado ou mesmo úmido atrapalha porque a lenha tende a encharcar. Neste caso, construa uma base onde a fogueira será montada. Eventualmente a própria madeira da base queimará, e nada será desperdiçado.

 O segredo do sucesso é a preparação correta para se fazer qualquer fogo. É preciso ter todo o material a ser usado na fogueira à mão antes de riscar o fósforo, ou fazer a primeira faísca. É muito comum um iniciante se esforçar para obter a chama inicial, e após conseguir se desapontar por demorar tempo demais correndo atrás de material para alimentar o fogo. Este é um erro primário que deve ser evitado. E também não adianta querer acender troncos, ou mesmo gravetos grandes na esperança de que se incendeiem. É aí também que falham os que procuram acender uma churrasqueira começando pelas toras de carvão. O fogo começa bem pequeno, com os menores e mais frágeis materiais que se pode encontrar. Costumo chamar de ninho de fogo, porque tendo a criar algo semelhante a um ninho de passarinho onde vai nascer a brasa(uso método de centelha, tema de futuro post) que dará origem ao fogo propriamente dito. O material usado deverá estar bem seco para maximizar as chances de sucesso. Depois acrescente gravetos bem miúdos, da grossura de palitos de fósforo, passe para gravetos da grossura de um lápis, depois adicione galhos da grossura de um dedão, e então pode adicionar material maior, embora eu não costume usar nada muito espesso. Em caso de coletar galhos grandes, é sempre bom partir em 4 no sentido longitudinal, desta maneira a madeira mais seca do centro fica exposta e pega fogo mais depressa. Sempre junte mais material do que acredita necessário para o fogo, pois na hora não haverá necessidade de correria para encontrar mais combustível. Uma dica importante: Ao caminhar pela trilha, sempre que identificar bom material para acender fogo guarde-o, pois mais tarde, no local onde pretende acender a fogueira este pode não estar disponível(e frequentemente não está).


Alguns materiais naturais bons para começar um fogo são as fibras de coco, cascas resinosas de algumas árvores, sementes envoltas em penugem algodoada, capim seco, folhas secas pulverizadas, pó de madeira roída por insetos, entre outros. Materiais levados para o mato também têm seu valor. Palha de aço, algodão embebido em parafina ou vaselina, tecido carbonizado, bastões de madeira prensada e tabletes de álcool sólido são eficientes e baratos. Madeiras e folhas verdes queimam mal e produzem muita fumaça, sendo bons no entanto para sinalização. Tente pesquisar as madeiras de sua região, pois algumas queimam gerando pouco calor, enquanto outras geram boas chamas, requerendo menos interação.


Cuidado: Se for usar bambu como combustível, rache ou faça um corte em cada seção, pois ele explode se exposto fechado ao fogo. Lembre-se de escolher um local onde não haja a possibilidade do fogo se alastrar e ficar fora de controle, pois esta é a causa da maior parte dos incêndios em áreas florestais.

Com a prática, um trilheiro aprende de quanta lenha precisa para manter o fogo aceso durante o tempo necessário. Evite fazer uma fornalha quando somente precisar de algumas brasas, é desperdício de madeira e de sua energia ao procurá-la. Um ditado nativo norte americano sintetiza a diferença entre o uso de fogueiras entre os nativos e o homem branco: "O pele vermelha acende um fogo para se aquecer, o homem branco acende um fogo para aquecer o céu."

Bom treinamento, e boa sorte!

Te vejo na trilha!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Uma grata surpresa: A pequena EDC.

Logo após publicar o post sobre o novo projeto de faca que começava a desenvolver,  ao comentar com o amigo e cuteleiro João Voss que seu mais recente trabalho se enquadraria perfeitamente no que procurava e sondar o preço, fui surpreendido pela proposta generosa do mesmo: A faca seria remetida sem custo algum. O pagamento seria um teste meticuloso no mato, com direito a fotos e um artigo completo para figurar em seu site.

Aceitei no ato, agradecendo sua gentileza e também o voto de confiança depositado em meu julgamento. Ficamos assim combinados e a faca foi remetida já na manhã seguinte. Segundo rastreio pelo site dos Correios, devo recebê-la até o fim da semana, e os testes terão início o mais rápido possível.

Vamos a ela:

A EDC (de Every Day Carry), como a batizou o João, é uma pequena utilitária forjada de aço carbono (SAE 5160), full tang, com pinos em inox, cabo em madeira de lei, passador de cordelete em inox e pino mosaico decorativo central no cabo. A têmpera seletiva foi executada em parafina e revelada com percloreto com acabamento fosfatizado. Vem com bainha em couro natural feita à mão e cordelete em paracord 550 padrão desert camo (o mesmo de meu bracelete de sobrevivência).


Suas medidas são:
Comprimento total: 180 mm
Comprimento da lâmina: 75 mm
Largura máxima da lâmina: 25 mm
Espessura máxima da lâmina: 3 mm

Algumas fotos, tiradas pelo próprio cuteleiro em um teste:

Boas proporções para uma faca para trabalhos gerais. A bainha é muito funcional.
Neste ambiente é que ela vai estar a maior parte do tempo.
Linha de têmpera bem visível e desenho harmonioso, duas características da faquinha.
Por enquanto é só. Assim que os testes forem concluídos haverá um artigo específico no site do João, e outro aqui. E certamente a pequena EDC vai figurar em muitos outros posts, desempenhando sua função ao lado da minha bowie.

Te vejo na trilha!

domingo, 10 de outubro de 2010

O kit de primeiros socorros.

Antes de falar sobre os kits propriamente ditos, saliento a importância de estudar primeiros socorros. Cada pessoa que tenha boas noções se torna um socorrista em potencial em situações de emergência. Se uma em cada 10 pessoas entender de primeiros socorros, a chance de ser devidamente socorrido em qualquer situação possível é grande. Tenha em mente que em trilhas e locais remotos, as aplicações serão ligeiramente distintas dos acidentes em área urbana, onde o resgate é rápido e fácil, exigindo portanto algumas adaptações.

A maior parte das pessoas que se aventura pelas trilhas sabe que deve levar um kit de primeiros socorros, mas não sabe o que colocar nele nem como usar. Os kits vendidos em farmácias e lojas costumam ser apenas enganações, com componentes baratos e ineficazes. O melhor a fazer é montar o seu, escolhendo cuidadosamente o que entrará nele. Cuidado com exageros, se não for médico não leve material de uso específico destes profissionais.

Alguns itens são universais, mas seu kit deverá levar em conta alergias e outras necessidades pessoais. Em caso de medicação regular, considere levar um estoque de cerca de 3 dias destes medicamentos, para não correr o risco de se perder e sofrer até ser resgatado.

Como referência, mostro a seguir o meu kit padrão, com a descrição de cada Item:

Luvas descartáveis. Para atendimento em situações com sangramento, para evitar qualquer contaminação.
Atadura de crepe. Para curativos compressivos, ou tipóias.
Compressas de gaze. De preferência mais de um pacote. Usadas em cortes e lacerações.
Pacote de algodão. Para a limpeza de ferimentos e aplicação de antisséptico.
Esparadrapos variados para curativos. O Micropore é para os aplicações diretamente sobre a pele.
Band-Aids. De preferência de tamanhos e formatos variados, para vários tipos de curativos leves.
Cotonetes acondicionados em embalagem plástica. Para remoção de ciscos nos olhos, ou ainda aplicação mais localizada de antisséptico.
Antisséptico para aplicações em ferimentos em geral. Cuidado com a embalagem de iodo, em caso de vazamento manchará tudo à sua volta.
Tesoura e pinça. A primeira para cortar curativos e a segunda para remover espinhos, cacos de vidro e etc.
Analgésico. Para febre e dores de cabeça.
Anti alérgico. Este é o único especifico, para um problema que me ataca rotineiramente.
Anti histamínico. Para reações alérgicas a picadas de insetos, plantas urticantes ou mesmo alimentos.
Kit acondicionado em um bolso padrão MOLLE II, para ser fixado à parte externa da minha mochila.
Detalhe da fixação do sistema MOLLE II.
Faltaram ainda (preciso comprar mais):
- Lâmina descartável de bisturi, para remoção de espinhos profundamente encravados;
- Alfinetes de segurança, para fixação de talas, tipóias e afins;
- Vaselina estéril, para curativos em queimaduras.

Pode parecer pouco, mas é preciso ter em mente que primeiros socorros não são estojos,  são procedimentos, conhecimentos dos quais você pode dispor em uma emergência, daí a importância do treinamento, conforme dito acima.

Estude, treine e tenha à mão ferramentas básicas para as emergências possíveis em suas andanças pelas matas e montanhas, e fique tranquilo.

Te vejo na trilha!

sábado, 2 de outubro de 2010

A faca do aventureiro. Um projeto novo.

Faz algum tempo que ando pensando em um novo projeto.

Trata-se de uma nova faca, menor que minha bowie custom, mas igualmente forjada e feita sob encomenda, para todas as tarefas mais delicadas que a prática de bushcraft pelas nossas matas exige. Não se trata de uma substituição, mas de um complemento, tendo em vista que não existe uma ferramenta perfeita para todos os serviços.

A minha bowie, embora extremamente robusta e capaz das mais árduas tarefas de corte, é muito pesada e grande para pequenos detalhes, como esculpir aquela pecinha da armadilha, ou fazer um anzol improvisado de madeira.

Para suprir esta carência atualmente tenho usado o meu fiel Victorinox, mas devido a uma linha de projeto escolhida pelo fabricante, a retenção de fio não é tão boa quanto poderia ser em uma faca custom. Natural, pois a idéia é que usuários comuns possam trabalhar o fio de suas facas.

Esta faca proposta será a resposta a todas estas exigências.

Deverá ter entre 18 e 20 cm de comprimento, ser feita de aço carbono, por forjamento, e receber tratamento térmico adequado para que seja extremamente afiada e possa manter este fio por longos períodos. A princípio, segundo meus primeiros esboços, o cabo será apenas paracord enrolado na espiga, solução simples e eficiente. A bainha será em couro, modelo saco, solução tradicinal que elimina a necessidade de presilhas e botões de pressão.

Ainda não iniciei as discussões com nenhum dos cuteleiros conhecidos, que levarão a maiores desdobramentos da idéia inicial, então a forma final ainda é um mistério.

Primeiro esboço, com bastante barriga e clip pronunciado.
Variação, um pouco mais delicada.


O projeto terá andamento e atualizações constantes.

Te vejo na trilha!
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